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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

...em CWB




(Terminal Campo Comprido para aula com Cristiano Mascaro. Mais em http://amandascharr.wordpress.com/)



Os curitibanos precisam de abraços
Tato, pele,
um cheiro
Uma música
cantarolada no elevador
Uma cor
assim
Por favor,
não é só em SP
que não existe amor
(e não foi eu,
mas o poeta daqui quem falou)

Os curitibitas e suas magrelas
Pedalando em linha reta
Precisam é sair da linha
– entrar na minha
(Por que não...)

Eu peço informação
quando não preciso
só pra ouvir.

É muito silêncio
É muito silêncio
É muito silêncio
O biarticulado passa zunindo
e é o único
que conversa comigo

É engraçado
que
o mais bonito
é a sonoridade
dos lugares
daqui
Mossunguê
Barigui
Bigorrilho
Batel
e
Mercês
Mas eles
preferem
francês
inglês
(com Soho, talvez)
pra rebatizar a geografia

Cidade geométrica
Escassez de caos
talvez
Poema concreto
– não foi à toa
que o Décio
viveu aqui –
te peço,
uma rima
imprevista
verso livre
com pé
Picasso
praça cheia
paixão.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Assalto à linha 20

Esta noite o ônibus em que eu estava foi assaltado. De mim, levaram algo caro. É o segundo roubo à mão armada que presencio. O primeiro há alguns anos, quando três adolescentes com um revólver fizeram a limpa no caixa do coletivo. Dessa vez, foi um casal, munido de uma faca ordinária. Saíram insatisfeitos, com um punhado de moedas e passagens, mas sem causar maiores transtornos (sic). Já o cobrador não teve a mesma sorte de “principiante” que eu. Este foi o 16º assalto que sofreu. Isso mesmo, com todas as letras: o dé-ci-mo sex-to! Aí se deu o crime que me atingiu.

Pude ficar impassível durante os minutos em que a dupla se amontoava sobre os meus joelhos exigindo “as notas” (para dar mais emoção à vida eu estava sentada no banco imediatamente anterior à catraca). Também consegui dizer com o tom mais reconfortante que consigo para que o experiente assaltado respirasse fundo, enquanto ele chacoalhava como vara verde em dia de minuano. E até relatar com tranquilidade as poucas características físicas dos assaltantes que consegui registrar. Mas quando eu ouvi o cobrador dizer, entre um risinho nervoso que, com este, eram 16 os assaltos de que foi vítima, toda a minha raiva, indignação e sentimento de impotência vieram à tona.

Eu fui violentada. Mas a violência não foi cometida apenas por um casal de delinquentes de meia tigela.  Eu e todos os que estavam no ônibus fomos vítimas da omissão do poder público, para dizer o mínimo. “Falta de segurança” é demasiado abstrato e brando para definir a situação. É impossível aceitar esses roubos como rotineiros, chegando ao cúmulo dos profissionais tornarem-se fregueses dos mesmos ladrões – não porque os trabalhadores sejam obtusos, mas porque os “meliantes” se qualificam. É inadmissível que os usuários do transporte público paguem caro por um sistema ineficiente e ainda se submetam a ficarem vulneráveis a situações de violência. Ou então, restritos a transitar apenas em horários (por enquanto) tidos como mais seguros.

Francamente, não consigo deixar de considerar que as empresas concessionárias, o Município e a Justiça são coniventes com a situação. Apenas para ficar no fato concreto e abordar uma alternativa simples para reduzir a ocorrência de casos como este: é de conhecimento público que a comunidade e os operários do transporte público urbano há anos reivindicam a implantação da bilhetagem eletrônica. O sistema obviamente diminuiria, e muito, o fluxo de dinheiro e passagens (que facilmente são transformadas em moeda corrente). Hoje uma pendenga judicial emperra a implantação da tecnologia em Passo Fundo. E por quê? Entidades apontam irregularidades na contratação do serviço de bilhetagem e na concessão das linhas à iniciativa privada.

Não tenho subsídios para dizer se o trâmite é legal ou não, só a Justiça pode fazê-lo. Mas de uma coisa tenho certeza, todos estão errados. Se houvesse vontade política ou respeito por parte da iniciativa privada, um trabalhador não teria vivenciado por 16 vezes a mesma situação. Você, que lê nos jornais, pode já estar habituado a notícias assim e ficar feliz pela perda ser apenas material, mas o cobrador mesmo calejado no rito de esvaziar o caixa não consegue ficar imune ao pânico, ao medo, à humilhação. Além disso, como qualquer cidadão, eu também tenho o direito de percorrer os cerca de cinco quilômetros que separam a minha casa do lugar onde trabalho em segurança, usando o meio de transporte que me é acessível e que deveria ser priorizado em uma cidade com excesso de carros e escassez de vias alternativas.

Não, o problema não é a impunidade. Não é o consumo de drogas. Não é distribuição de renda. Não é a falta de oportunidades. Não é a ausência de planejamento ou a desvalorização do transporte público. Estes são apenas alguns sintomas. O problema é o que não temos feito até hoje. O problema é que precisei ouvir o desabafo despretensioso de um cobrador pra me encolerizar. O problema é que a maioria dos políticos, juízes e empresários não se preocupam com quem os sustenta (e claro, não andam de ônibus. Não em Passo Fundo). Não. Na verdade, esse também não é “O” problema. O problema é não perceber. Não falar. Não discutir. Não agir.  Mas você – ainda que não utilize ônibus, talvez tenha consciência e ou a mais simplória solidariedade – certamente vota e, provavelmente, usa as redes sociais para se expressar. Portanto, meu caro, escolha bem a quem tutela o poder sobre a sua vida e as “causas” pelas quais de indigna e virtualmente grita. Continuemos indo às ruas pelos direitos dos animais, mas que também exista comoção pelos direitos dos humanos. Mesmo para os não tão semelhantes à você.

segunda-feira, 7 de março de 2011

folia na carne

me diga. me grita. me liga. ontem eu perdi um amigo e não havia ninguém para apertar a minha mão e apartar a sensação de um pedaço da minha vida desfalecido. um dos melhores pedaços. de risadas fáceis, conversas tontas, companhias boas.
um ano mais novo que eu e alguns de distância de convivência, mas ele 15 anos mais de felicidade e de facilidade de levar a vida. é assim. em pleno carnaval se perde um bufão.
agora, me leva embora. alguém me iluda e diga "baby, a vida pode doer menos. que mania insana a sua de alcançar os extremos".


sábado, 5 de março de 2011

Relógio de Dalí (pra rir)

Ficou relógio sem corda,
sem pilha.
Ponteiro que não caminha,
apenas decora.
Assim como ela,
que enfeitou a apatia.
Foi movimento demais
pra tamanha monotonia.

De quem guarda quadros
sem pendurar
Emoldura imagens
que não vai lembrar
Faz compra às sete
guarda o carro às onze
e vai descansar longe do mundo.
Não se contamina
com o que não pode
controlar.

A menina não sabe
o que será. Escolheu
o inusitado e ele entendeu como
"ao Deus dará".
Não coleciona quadros,
nem figurinhas, nem rancores.
Não queima fumo, não come congelados, não ouve os mais tocados
nem bate ponto com moralistas e acostumados.
Nem discrimina os desclassificados
(Ou classifica os não enquadrados).
                       ...

O relógio está na parede
sem nunca ter feito
Tic tac.



Amanda SchArr

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

To be happy, or not to be



A tristeza está com dias contados. Como os fumadores de ópio do século XVI ou os indígenas ameríndios no século XV já sabiam, os cientistas de agora vaticinam: tudo é questão de química. Ou melhor, de uma falha bioquímica. Sem pretensão de entrar no terreno pantanoso das patologias psíquicas, falo aqui de uma tristeza modesta, inofensiva aos alheios. Da melancolia, essa tristeza branda que não sai às compras.

O fato é que aquilo que certa vez chamavam ‘traços de personalidade’, agora se resume a uma falha genética que faz com que os neurônios não produzam determinada substância e blá, blá, blá, blá, blá. Ou seja, amigo, não bastasse sua inteligência medíocre agora você é também defeituoso. (Mas calma, não fique assim borocochô, aceite um prozac como paliativo).

Logo, o que não funciona precisa ser consertado. Resigne-se, a tristeza assim como os olhos castanhos, a baixa estatura, o acúmulo de gordura, o nariz grande, o baixo QI, a calvície, etc, tudo será eliminado. Você que, como eu, padece de todos estes terríveis males acostume-se com a idéia de ser um animal em extinção. O futuro será bronzeado, com vasta cabeleira, dentes perfeitos, olhos claros, barriga tanquinho, QI 130 e... claro, insuportavelmente feliz! A engenharia genética irá permitir aos pais, que construam milimetricamente seus rebentos. Os zelosos progenitores escolherão o melhor para seus herdeiros e, assim como pais de infância pobre dão aos filhos tudo que lhe foi renegado, escolherão os genes mais preciosos de presente aos seus sucessores.

Paro os netos desta geração 2000, a tristeza vai ser apenas uma lembrança remota, tal qual um nome de rua em bairro de boêmia antiga. Ensimesmado, lânguido, taciturno, soturno, melancólico... serão palavras definitivamente em desuso, vocábulos que perderão o significado.

Pior: o que será da música?! A dor de cotovelo, a saudade... sempre renderam muitas canções. Mas é de se notar, que até no vasto repertório brega-pop dos ônibus, nem os previsíveis (pseudo)sertanejos emplacam mais seus outrora tradicionais versos de dor-de-corno. A nova onda tem algo de um revanchismo barato, quase eufórico, que não chora pelo amor perdido, mas avisa que a fila já andou e de danem-se o sentimentalismos. Aqui, eu ouço um Nelson Gonçalves e penso que o velho boêmio não prosperaria nos dias de hoje.

Não há mais espaço para lamentações, honey. É preciso rir para sair bem na foto. Mas se você que já está aí, nascido errado, e não consegue por na cara essa alegria de comercial-de-margarina-com-pasta-de-dente, nem agüentar esse carnaval 365 dias sem quarta-feira de cinzas, a farmacologia e a cirurgia estética (não há face que um bisturi e umas aplicações de botox não possam deixar permanentemente em sorriso) estão aí para ajudar. Agora, se o caso for agravado pelo bolso vazio é preciso se contentar (rárárrrá). De consolo sugiro usar, ao acordar amanhã, as palavras de Vinicius pra dizer:

Bom dia, tristeza 
Que tarde, tristeza 
Você veio hoje me ver 
Já estava ficando 
Até meio triste 
De estar tanto tempo 
Longe de você


*Originalmente publicado pelo site CAIXA ALTA

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Carta ao (quase) amor do ano zero

Meu bem, fica zen. Lembra de quem te faz sorrir, abra as janelas. E deixa daquelas noites de dramas que te fazem sofrer.


Eu nunca diria que o mundo não é cruel, mas sobre nós há um céu imenso pra desvendar. Portanto, faça o possível para olhar as estrelas, tomar um sol e permitir alguns encontros. É certo, haverá uns quantos tontos, criaturas mesquinhas, mas entre esses e outros algumas pessoas serão dignas de se amar (e é bom amar mesmo as indignas).


Se permita tentar, a dor é um tempero desses nossos tempos. E não te preocupa, se bater algum desespero, umas dessas tantas nóias dos nossos distintos desassossegos, pode me ligar. Sempre haverá um ombro e um café dispostos a te aguardar.


Com carinho e desapego desse meu apego que só sabe libertar.


Amanda SchArr